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terça-feira, janeiro 24

Nós e laços - Postagem Temática

Tu estavas lá, como sempre, apoiada no bar, quando ele - de longe - te chamou para dançar, antes de nada acontecer. Nem disse o porquê, nem disse que não; você nem o notou, e o coitado ficou lá, ainda te olhando, como quem se convence de alguma mentira. Mas eu acho que a mentira devia ser realmente boa, porque ele não deixou de te olhar nem um minuto. E, sabe, tem daquelas vezes que você enxerga nos outros um futuro bom pra alguém, como eu enxerguei para ti. Só que tu não o viste, e nem viste o que eu vi.

Há quanto tempo eu te vejo nesse mesmo lugar? Nesse mesmo bar, nesse mesmo copo. Nesse mesmo corpo. Quantos nós te prendem a essa vida a qual tu te limitas? Quantos de nós ainda te querem por perto? É meio triste pensar que você estará sempre lá, com um sorriso nos lábios e uma história vazia, enchendo mais um copo, enchendo o saco, secando os olhos e contando falsos fatos. Você estará sempre lá, ignorando a música; amarrando pontas e pintando traços. Bebendo à frustração dos nós.
[dos cegos.]

Você nem sabe mais como foi que ficou assim, tão amarrada.



Triste é ver que você tem tantos nós, mas nada de laços. E esses nos teus cabelos não contam.


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Esse post é um oferecimento do Blogsintonizados, que teve como tema LAÇOS. Para a próxima rodada eu sugiro o tema CALOR - super, e infelizmente, "in" nessa época.

Queria registrar minha satisfação em ver esse projeto de volta, e de voltar a escrever para ele. Espero que mais blogueiros ainda se juntem ao Sintonizados e que o projeto não pare mais. Quem quiser participar, acessa o Blogsintonizados e se inscreva!

quinta-feira, setembro 30

Espelho, placas e queda - Pseudo-Postagem Temática

Sabia quais eram os problemas de cor e salteado; sabia quem era o culpado, quem se fazia de vítima... Sabia quem aparecia no espelho. Já vira o filme antes - uma vez e outras tantas. Fizera escolhas e não se arrependia delas, mas por que tudo precisava sempre ir para o lado errado? As placas apontavam a direção, mas quem disse que confiava nelas? Quem?

Placas. Quem precisa delas? Tomou a direção do precipício e pulou. Voava. Quem disse que era preciso descer a montanha pelas estradas sinuosas em vez de escolher o caminho mais rápido era quem precisava das indicações; era quem precisava de alguém que escolhesse os caminhos em seu lugar. Nunca precisou de placas. Desceu o precipício com toda a intensidade que ele merecia.

Mergulhou na vida de um jeito que, talvez, fosse fazer com que se afogasse de vez. Pulou do alto e esperou pelo impacto; ansiava por ele. Queria cair e acordar. Cair, e deixar que o espelho se quebrasse. Precisava do conforto das estradas claras e das placas mudas.

Precisava de um paraquedas.

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De novo, perdi o prazo da Postagem Temática. A correria diária - e uma "provinha básica" da faculdade - me fez esquecer das coisas que me davam prazer e descanso, como escrever aqui. Não pude deixar de produzir o texto, ainda que fora do tempo, porque achei o tema interessante; como estou fora do prazo, o "Postagem Temática" não vai no título (pseudo-postagem temática, pra fazer referência) mas a sugestão veio de lá e outras pessoas também escreveram sobre QUEDA, o tema da vez. Então, entra no Blogsintonizados e dá uma conferida nos outros textos.

sexta-feira, agosto 6

Que deixasse incendiar - Postagem Temática

Se o contraditório for necessário ele está disposto a aceitar. Se for preciso queimar sua zona de conforto e mergulhar de cabeça em tudo que disse que jamais faria, então ele ficaria completamente submerso e nem ligaria pra reação das pessoas. Ela estava ali, entregue à deriva, e nem a apatia que normalmente o acompanha poderia resistir àquela cena.

Enxergava-a poucos metros de si, de braços estendidos para ele e com aqueles olhos de moça desprotegida, com medo. Com os braços estendidos de quem pede por colo e com os olhos cheios de tudo que ele mais desejava. Frágil. Havia uma sentimento mais forte do que outro que ele já vira; tinha fogo. Era mais que mero capricho; era vital. E ele a via tão perto que podia sentir aqueles braços em torno do seu pescoço, prendendo-o à sina que era aceita de bom grado, com os mesmos olhos marejados e ao mesmo tempo em chamas. Era a metamorfose de quem se descobre perdido e deixa de procurar o caminho de volta: traçava ali um novo rumo para a vida que considerava encerrada, e para a moça que parecia depositar tantas esperanças num transeunte.

Se o contraditório for necessário, ele passa por cima da sua atmosfera protetora e rompe as barreiras do seu universo seguro, e sem que pense muito para não mudar de ideia, permitirá que qualquer tipo de sentimento seja despertado por aquela estranha de olhos desprotegidos e pele [ele imagina] escaldante. E a estranha talvez o descarte depois de satisfeita, e talvez o prenda pra resto dos tempos, e talvez nem mesmo o aceite por um minuto e prefira continuar à deriva até que outro passante lhe seja mais atraente. Mas talvez aqueles olhos estejam, mesmo, procurando por algo dentro dele que lhe sirva de abrigo e esteja disposta a preencher os buracos daquele coração enrijecido.

Então aceita a contradição e lança o fogo na barreira que protegia sua sanidade emocional a tempo de enlouquecer o ritmo de seu batimento cardíaco e ser dominado por aqueles braços e olhos; e agora também pernas e mãos, e boca. Ele que disse que nunca deixaria a vida lhe acometer agora padecia por uma sensação intensa. Por uma loucura pungente. Pela vivacidade do prazer pela insegurança do acaso.

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Esta postagem faz parte do Postagem Temática, do Blogsintonizados. Nessa edição comemoramos o aniversário do projeto e por isso, se você acessar lá pra conferir as postagens dos demais participantes, verá que cada um está com um tema diferente. Dessa vez, cada um sugeriu uma frase para iniciar a postagem de um colega, os temas foram sorteados e eu fiquei com a sugestão da Amanda Ramalho: "Se o contraditório for necessário...".
Acessa o Blogsintonizados e espia quais foram as outras frases sugeridas e o que o pessoal andou escrevendo. : )

sexta-feira, julho 16

For real - Postagem Temática, ou quase

Precisava de alguma coisa que mantivesse os seus pés no chão; há algum tempo a gravidade não conseguia cumprir essa tarefa. Tinha de encontrar algum tipo de qualquer coisa que o fizesse pensar em futuros possíveis, fazer planos concretos e tangíveis. De repente, suas ilusões não lhe bastavam.

Não queria mais saber de vícios saudáveis. Não queria mais vício nenhum. Queria ouvir música porque gostava, ler livros porque se divertia, conversar porque queria; cansou de se cansar com as pessoas e consigo mesmo. Não queria mais saber do vício do cansaço sem propósito. Não queria mais saber de tudo que fazia parte do seu conflito interno, porque esse existia desde que se entendia por gente e percebeu que estava na hora de jogar coisas no lixo. Precisava fazer cortes na vida, deixá-la sangrar até que a toxina se fosse e então costurar as feridas abertas. Precisava que a gravidade fizesse seu papel e que isso fosse suficiente. Ele queria que o chão parecesse firme sob seus pés.

Seria mais um conflito pro seu íntimo. Talvez não existisse essa "coisa" e a busca era inútil. E talvez tivesse de ser feliz consigo mesmo.

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Eu sei que o tema da postagem era "do que eu não quero saber", o que implicava um "eu" no texto. Mas eu tenho a terrível mania de transferir confissões imaginárias para terceiros. O que não significa que sou eu ali em cima. Ou ele. Ou alguém. Ou que isso seja verdade/mentira.
Que seja. N'O (meu) Inacreditável Mundo cada um tira as conclusões que quiser.

Oferecimento: Blogsintonizados

quinta-feira, junho 24

Por inteiro - Postagem Temática

De mentiras convincentes não me ganhas, e de verdades imprecisas estou cheia. Em meia hora não quero ouvir meias palavras. E eu quero as frases inteiras, com os verbos no presente.

Eu não quero mais o saudosismo dos tempos inexistentes; eu não quero mais a ambição por tempos futuros e melhores. Quero agora, em meia hora, teus sentimentos confessados em orações completas.

De verdades enganosas a mentiras bem contadas ergueram-se muros tão sólidos quanto os meus castelos de areia. Em meia hora eu quero tudo por inteiro. Inclusive o tempo.

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Este post é um oferecimento do Blogsintonizados. O tema da vez foi "MEIA HORA". A minha sugestão para o próximo tema é a mesma da semana passada, JANELA, já que foi por pouquinho que não foi escolhida (vou tentar outra vez! xD).

sábado, junho 5

Cansamento - Postagem Temática

Ele segurava minhas mãos e olhava fixamente os meus olhos com uma ansiedade louca. Eu podia sentir suas mãos suando, tremendo. Um sorriso torto e nervoso se insinuava pelo canto da boca dele e eu não conseguia afastar os meus pensamentos desconfiados. Ele sabia disso porque olhava tão firmemente nos meus olhos que era capaz de saber o que passava na minha mente; por isso, ele torcia pra que eu ouvisse o coração. Pelo menos o dele, que batia tão rápido e forte que parecia pular pela boca a qualquer momento. Ele então me prendeu as mãos e sua expressão foi mudando lentamente: acho que se deu conta de que eu começava a ficar com medo daqueles olhos nervosos pelos quais me cuidava. Postou-se sério e atento quando então me fizeram a pergunta:

- Mary Liss Theodor, você aceita este homem como seu legítimo esposo, para amá-lo e respeitá-lo na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte os separe?

Naquele exato momento, quando ele prendeu a respiração e o padre fez cara de espanto com minha demora, eu soube que eu nunca conseguira fazer as melhores escolhas pra minha vida; entretanto, dizer sim não faria dessa a primeira vez que eu acertaria.

Ele, por um momento, apertou minhas mãos como se tentasse me trazer de volta para a realidade e mudar minha resposta. Mas em seguida afrouxou o aperto até que fosse um simples toque, porque percebeu que não seria suficiente para por juízo na minha cabeça. Eu não nascera para casar, era o que eu sempre dizia pra ele quando éramos namorados; mas acho que ele nunca me levou a sério.

Podíamos ter sido felizes como amantes pro resto da vida. Mas as pessoas gostam de complicar as coisas com esse tal de casamento. Não comigo.

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Esse post é um oferecimento do Blogsintonizados, que promove o Postagem Temática idealizado pelo Rafael Glória. O tema dessa edição foi CASAMENTO. Minha sugestão pro próximo é Janela.

domingo, maio 9

Sentidos - parte II - Postagem Temática

As mãos dela estavam geladas a ponto de arrepiar o corpo inteiro; a escaldante pele dele não era o suficiente para aquecê-la e fazê-la querer aquilo também. Ela não queria mesmo.

Tentou enganar o pobre coitado com as artimanhas de sempre: deixou que pegasse seus cabelos e tonteasse com seu perfume para então apertá-lo contra o peito só para sentir o coração dele disparando, enlouquecido, e depois olhá-lo firmemente nos olhos e, sem oferecer resistência, deixar que ele a pegasse no colo e a levasse dali. Mais uma vez, seria dele por uma noite inteira, na qual nem mesmo os cobertores poderiam aquecer o coração congelado que bombeava sangue frio por suas veias; coração este que nunca derretera por ele.

Há um ano desistira de forçar o processo de degelo; há dois contentava-se com o esforço dele em ser o que ela precisava. Naquele exato momento tornava-se sua futura esposa.
Desistira de encontrar sua praia ensolarada nos braços de algum qualquer. Viveria em constante inverno.

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Este post participa do projeto Postagem Temática. Para saber o que mais foi postado com o tema desta edição, FRIO, acessa o Blogsintonizados; lá tu também descobres o que é o projeto e como tu podes participar.
Minha sugestão de tema para a próxima edição é PRESENTE, sugestão esta que foi dada por mim na primeira edição do Postagem Temática, ao fim do post A minha máscara.

segunda-feira, abril 19

Escorregadias - Postagem Temática

As palavras que eu te disse, por favor, esqueça. Eu não pretendia falar aquilo, mas na hora eu não pensei nas consequências. Eu sei, foi meu o erro de novo... mas eu estou tentando repará-lo agora. Me escuta.

Não é que eu não quisesse falar; não, eu não queria, não naquele momento... mas só porque eu não queria não significa que foi mentira. Mas é que tu me olhaste com aquela luz nos olhos, sabes? Aquela que ilumina o meu dia inteiro, que eu sempre procuro no fim do meu túnel. E essa luz me encheu de coragem e eu não pude conter... as palavras simplesmente escorregaram da minha boca. E eu disse que te amava também.

Mas então, me desculpa. Não me julga, por favor. Eu só não estava certa de que era hora de te dizer aquilo; e eu tive medo, como sempre. Eu sempre tenho. Mas eu sei que tu não tens e vais me ensinar a não ter também. Um dia, eu digo aquilo de novo e tu vais poder ver a luz dos teus olhos refletida nos meus, no lugar da sombra que vaga aqui por dentro.

Eu juro: um dia eu ainda repito que te amo.
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Essa postagem é um oferecimento do Blogsintonizados e faz parte do projeto Postagem Temática, idealizado pela Rafael Glória.
O tema desta edição foi: PALAVRAS
Sugestão para a próxima edição: Frio

sexta-feira, março 26

Emudeceu - Postagem Temática

Foi tudo que sobrou... Garrafas vazias, pontas de cigarro e essas lembranças que nunca se calam. O meu apartamento está cheio do silêncio que você deixou aqui; quisera eu que minha cabeça estivesse assim também.

As garrafas eu quebrei. Elas insistiam em refletir o seu rosto, e eu podia jurar que elas tinham engarrafado o seu perfume também. Não pude controlar; as fiz em pedaços. As pontas de cigarro eu fumei até o fim, até se desfazerem nos meus dedos e exalarem aquele cheiro que eu tanto odeio...

Fiquei com as cinzas. E o silêncio dos seus lábios mudos e dos seus olhos loucos, insanamente vidrados com a proposta que eu fizera; vidrados de medo, por repulsa, por não conseguir pensar tão rápido quanto o impulso de sair correndo. Não conseguiu pensar; nunca tive resposta. Saiu correndo e selou a porta atrás de si.

Eu fiquei com as cinzas. Com os pedaços. Com o as lembranças infelizes do dia em que te pedi em casamento. Com maldito silêncio enchendo os meus ouvidos. Você devolveu tudo que eu ofereci, sem dizer uma única palavra.

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Este conto faz parte do projeto Postagem Temática, proposto pela Rafa Glória. Para saber o que mais aconteceu nesta edição, acesse o Blogsintonizados.
O tema da vez foi SILÊNCIO.

sugestão: Palavras

sexta-feira, fevereiro 26

Retorno de Marte - Postagem temática

Me acorda com os teus gritos e me obriga a te encarar logo pela manhã. Começamos o dia de novo.

Ignora o que te convém ignorar e fecha os olhos. E os ouvidos. Mas a boca tu não fechas. Temos então o problema de sempre; de novo e de novo. Não sei onde isso te leva, mas eu fico cada vez mais longe de ti; por minha escolha. Mais um dia igual aos outros; é, de novo, o mesmo dia novo.

Retorno. Das tuas crises e da minha vida amarga. Retorno pro mesmo dia novo.


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Este post é um oferecimento do Postagem Temática, projeto idealizado pelo Rafa Glória. O tema desta edição foi RETORNO.
Sugestão de tema: o que te agrada

quarta-feira, fevereiro 3

Sorte - Postagem Temática

Sorte minha. Se não fosse por ti, eu teria caído na lama. Mas tu estavas lá e me segurou pela cintura, me puxou antes que o meu desequilíbrio me levasse ao que seria uma trágico (pra mim) e engraçado (pra todo mundo em volta) banho de lama. Eu passaria vergonha e todos ririam; mas não aconteceu, por tua causa. Sorte minha.

E então tu continuaste me segurando enquanto eu tremia de nervosa, ainda calculando a distância entre mim e a poça. Me levaste pro banco do parque e ficaste ali, sentado do meu lado, me dizendo o teu nome e perguntando meu, falando do que tu gostavas e perguntando se eu queria tomar alguma coisa... E foi um dia agradável. E depois foram meses agradáveis; e anos. Sorte minha.

Tu, dia desses, me perguntaste o que eu achava sobre o casamento, e pediu minha mão. E eu fiquei feliz! Eu aceitei e descobri que sorte eu tinha de ter uma cara desses do meu lado. E foram mais vários meses agradáveis. A gente saía pra beber e dançar nos finais de semana; às vezes tu passavas da conta e virava um bêbado sentimental: ficava gritando que me amava e que ia me dar muitos filhos. Eu morria de vergonha do escândalo, mas não de ti... Eu sabia que tu me querias bem e eu te tinha muito em conta. Éramos casados, jovens e cheios de planos. Sorte minha.

E então vieram os filhos, gêmeos, e tu começaste a beber todos os dias... e nunca podias me ajudar com eles. E eu estava sempre carregando-os de um lado para outro, alimentando, vestindo, e ainda tinha que entregar os trabalhos em dia pro meu chefe. E enquanto eles choravam, tu bebias mais algumas doses de cachaça até não escutá-los mais; te jogava na cama, de sapato e tudo, e virava as costas para os que dependiam de ti. Mas se a bebida não te anestesiava, tu ficavas zangado e agressivo, e em vez de gritar que me amava, batias em mim. Sorte minha...

Finalmente, tu arrumaste as malas e sumiste no mundo, e eu nunca mais ouvi falar de ti; os teus filhos não lembram do pai e eu não posso nem mostrar as tuas fotos porque eu não guardei nenhuma. Agora eu sou mais uma mulher sozinha com dois filhos para criar, uma casa para sustentar e um trabalho mal remunerado para manter. Mas eu não preciso mais fugir de ti pelos cômodos da casa, nem esconder meus hematomas pra não precisar responder onde eu os tinha conseguido.

Se pudesse adivinhar o que aconteceria com aquele cara simpático do parque, eu teria desejado o banho de lama em vez daquele braço em torno da minha cintura... Que sorte a minha.

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O tema desta edição foi SORTE. Peço desculpas pela falta de criatividade no título da postagem... xD
Essa postagem faz parte do projeto do Rafa Glória, o Postagem Temática. Participe também =D

Sugestão de tema: espelho

quarta-feira, janeiro 6

Quando se olha para trás - Postagem Temática

As fotos ainda pendiam do teto, naqueles porta-retratos suspensos que ela tanto gostava. Dias na praia, no parque, no Campus... Rotinas, lembranças e saudades. Tudo lá, encarando-a por todos os lados, espalhadas. O que fizera dela o que era, o que a levara para onde ela sempre quis estar. Lá; mas sozinha, agora. Deixara para trás tudo que um dia não abriria mão; negava a ideia da separação. Jamais aconteceria. Mas "jamais", assim como"nunca", são palavras que não devem ser usadas.

A casa, enorme e elegante, totalmente desprovida de calor humano, abrigava somente uma alma perdida e fria; sem vida, talvez. As fotos penduradas eram o único vestígio de que as coisas haviam sido diferentes em outros tempos. Do sofá confortável ela observava a vida que tivera: o brilho que um dia morou em seus olhos, o sorriso que lhe enfeitava a face levemente corada e os cabelos longos que brincavam pelas suas costas. Parecia ter acontecido em outro mundo.

A moça, ainda deitada no sofá, perdia-se nas fotos que jogavam-lhe na cara cada erro que cometera. De longe, via-se nada ao redor dela; um muro construído por suas próprias mãos a isolava e impedia a felicidade de bater na sua porta. Nada além de um corpo vazio movendo-se nos cômodos projetados para muitos convidados; tão cheios como ela.

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Esse post faz parte do Postagem Temática, criado pelo Rafael Glória. O tema dessa edição foi NADA.
Para saber o que os outros blogs postaram ou inscrever o teu blog no projeto, dá um olhada no Blogsintonizados.

sexta-feira, dezembro 11

Preto no Branco - Postagem Temática

Terminara. Finalmente, a carta estava escrita. Cada palavra de agonia, de desespero, frustração. Estava acabada; como ela.
A folha tão branca, como a pele que revestia a mão que escrevia, parecia cintilar atrás das letras desenhadas à tinta. Analisava cada linha, como quem procura uma razão que desconhecia. Queria dizer mais; parecia não haver palavras. Conformou-se, então.

Os olhos negros continuaram a fitar a carta. Os dedos da mão tão branca passeavam pelos contornos dos escritos e a tinta tão preta borrava pelas linhas da folha pálida. O movimento delicado do seu toque fez o tinteiro cair no tapete e espalhar o pretume por todo lado. O piso claro foi tragado pelo buraco negro no chão.


Ela junto: no fundo do poço obscuro, absorta. Mergulhada na tinta negra que agora lhe tingia a alma. Preto o que era branco; a vontade de seguir em vida lhe escapava pelos dedos.





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Essa postagem faz parte do projeto Postagem Temática, idealizado pelo Rafael Glória. Participe também =D

sexta-feira, novembro 6

Chuva - Postagem Temática

Água caindo
como
gotas de lágrimas;
agora,
dilúvio
em noite fria
de verão.

A chuva
molhando o
rosto
de quem não pode
mais
chorar,
inunda os olhos
e leva
o cisco que entra
no olho de quem
diz
que não chora mais.

Dilúvio lá fora
e
por dentro
consola
o choro levado
com o cisco
pra fora.

A chuva que chora a água que leva o cisco embora.

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Essa postagem participa do projeto idealizado pelo Rafa Glória, o Postagem Temática.
O tema dessa edição foi chuva.
Para saber o que rolou nos outros blogs participantes acessa o Blogsintonizados.
Tá a fim de participar? Deixa teu recado lá no blog do Postagem =)


Sugestão de tema: ilha

sábado, setembro 26

Make a wish - Postagem Temática

Eu queria que fosse verdade. E queria que tu pudesses acreditar também. E queria poder olhar para frente sem temer o que está por vir, sem me esquivar dos julgamentos por saber que seria absolvida em todos eles... Eu queria ver além dos teus olhos cheios de um não-sei-o-que e ter certeza de qualquer coisa. Absolutamente qualquer uma.

Eu queria, meu amigo, poder contar comigo mesma nas horas difíceis; ser forte, destemida, esperta. Eu queria ter uma história gloriosa para contar, ser independente por completo e me orgulhar de certas coisas. E também acreditar que há alguém, ou alguma coisa, olhando por mim; que viesse ao meu encontro quando as coisas dessem errado.

Eu queria que tu pudesses olhar nos meus olhos e acreditar em qualquer coisa, também. Mas não se encontra nada por aqui.

Nem fé; é fato.

Me diz que as coisas vão mudar; crer em ti já me basta. Se a tua fé move montanhas, me ajuda a mover as pedras da minha estrada. Tropeço em todas elas e meus joelhos já estão doídos por suportar meu peso, esmagando-os. Eu queria saber o que se faz para acreditar nos "dias melhores"... Me ensina?



-- * --
Esse post faz parte do projeto do Rafa Glória, o Postagem Temática.
Essa edição teve como tema "Fé".
acompanhe o blog do Postagem ;]

sexta-feira, setembro 18

Time of your life - Postagem Temática

Parece que foi ontem que eu estava indo pro colégio, pra minha turminha da pré escola, com uma lancheira e uma pasta cheia de desenhos. Mas não foi. E mesmo que as lembranças sejam tão claras elas me deixam a certeza de que eu estou esquecendo dos detalhes mais importantes. Minha memória raramente funciona como um filme sendo reassistido, normalmente é como um álbum de fotos arrumado cronologicamente, ou um curta (bem curto mesmo), mostrando minha vida como uma apresentação de "slides".

Eu tenho as minhas preferidas. Aquelas que eu deixo na prateleira mais bonita da minha memória. Tempos e momentos felizes, marcantes, relevantes e até uns meio obscuros que, de uma forma ou de outra, me ensinaram alguma coisa que valha a pena lembrar e passar adiante. E tem também aquelas que não nasceram de momentos reais, são apenas fruto de uma imaginação meio amalucada, que fica retratando o que poderia ter sido se tivesse acontecido.

Minhas fotografias pessoais, secretas; lembranças.



"[...] So take the photographs and still frames in your mind
Hang it on a shelf of good health and good time
Tattoos of memories and dead skin on trial
For what it's worth it was worth all the while

It's something unpredictable
but in the end it's right
I hope you had the time of your life"
[Time of your life - Green Day; Fonte: http://letras.terra.com.br/green-day/500567/]



*Essa postagem participa do Postagen Temática
http://blogsintonizados.blogspot.com/
O tema dessa edição foi: Fotografia

domingo, agosto 16

E nós - Postagem Temática

E tu, ainda nesse bar a essas horas, afoga tuas mágoas num copo de cachaça barata. Afoga tuas incertezas, teus medos e tuas inverdades; tu foges, como uma criança que ainda não aprendeu a encarar o escuro.
E agora, fazes da madrugada tua companhia para a bebedeira porque sabes que ela só vai embora quando o sol nascer e sabes também que ela não vai te calar, te acusar; mas a tua consciência já basta, não é? A culpa grita nos teus ouvidos e é por isso que tu ainda estás te entupindo dessa merda.
Só que a madrugada não está nem aí para os teus problemas e no fim ela só vai te entregar pro começo de um novo dia, sem se preocupar se tu vais chegar em casa ou não. E ela não vai deitar do teu lado e esperar que tu caias no sono, nem vai preparar um café forte pra tu te sentires melhor. E quando as saudades das nossas noites que viravam dia baterem na tua porta, tua vais estar sozinho; a madrugada não é nada além de um esconderijo, do breu que te acolhe, que te ampara.
E tu, ainda sentado à mesma mesa em que nós costumávamos afogar as nossas mágoas e resolver os nossos problemas, bebe cada gole dessa coisa amarga e fajuta procurando o mesmo gosto que ela tinha quando nós a bebíamos. Pedes para que as horas não passem para que ela não vá embora, também. Mas as horas passam, como sempre passaram, e no fim tu estás só novamente.

E eu, aqui, ainda te olhando, posso sentir o peso que a tua ausência descarrega sobre mim. Afogo-me nesse copo imundo, nesse corpo de ninguém. A madrugada chega e eu me acabo porque ela me diz que tu não estás aqui, e ela ri. Ri da minha cara, na minha frente; eu te fiz partir e te culpei pela minha instabilidade, por isso me desfaço na culpa que te assombra.
E agora eu me perco nesses braços que não são os teus, procurando o teu olhar nos olhos que não te pertencem. A madrugada chega e se vai, o sol nasce e se põe e ela chega de novo, para mim e para ti. A madrugada que te acompanha e que me tortura; que depois te abandona e me devora.



[sugestão de tema: sorriso]
http://blogsintonizados.blogspot.com/

domingo, julho 26

A minha máscara - Postagem temática

Ele evitava o meu olhar. Eu sabia que aquele olhos não eram mais os meus. Estavam perdidos num mar furioso de sentimentos contraditórios; ao mesmo tempo que queriam conceder o perdão, evitavam qualquer tipo de fraqueza. Ponderavam, em um silêncio amargo. Ele evitava me olhar nos olhos como se eles fossem deflagrar o último e impiedoso golpe sobre sua certeza auto-protetora. Evitava meus traços para não perder o pulso.

Aquele não era o rosto dele; não era o meu rosto. A amargura passara a sair do silêncio para ficar estampada em suas feições, como se apenas aquela expressão dura e irreconhecível fosse suficiente para me fazer dar as costas e partir. Mas não era. O olhos frios e presunçosos continuaram a me observar, ansiando o momento que eu diria que era tudo uma brincadeira de mau gosto, os lábios sorriam um sorriso torto como se rissem de si mesmo; ou de mim. Não era uma brincadeira, ele sabia. Eu não merecia o perdão, e eu sabia.

Sentou na pedra lisa, tapou o rosto com as mãos por alguns segundos e quando as baixou eu podia reconhecê-lo. Os meus olhos, o meu sorriso, a minha expressão despreocupada de quem não tem planos... Era ele, e era meu de novo. Toquei seu rosto com a ponta dos dedos, sentindo uma pele fria e rígida, como se fosse porcelana. Ele baixou o rosto e alguns cacos se espatifaram no chão, colorindo o solo rochoso com pontos marfim da máscara que cobrira seu rosto por todo tempo que estivera ao meu lado.

Ele não era o único que fora enganado; e talvez não houvesse mais sentido pedir perdão.



[sugestão de tema: presente]