Mostrando postagens com marcador ficção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ficção. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, maio 18

Afinal

[...] Era como ter vida do lado de dentro. Era como ter a face menos pálida, as olheiras menos fundas, os olhos menos tristes e o sorriso mais verdade. Era como se o lado de dentro vivesse de novo, porque pesava menos.


Só que daí acabou o conto. Acabou na hora em ele disse "apesar de tudo". Acabaram-se as risadas do dia e tudo ficou meio raso de novo - menos as olheiras. O conto não era de fadas, e não implicava um final feliz. Oferecia um final de contos modernos, onde cada um fica do seu lado e só retira as barreiras de vez em quando.

Aquele final que não tem ponto. Que não tem o "fim" escrito na última linha. O final de quem esquece que existe um lado de dentro, ou de quem quer evitar chegar ao ponto de abrir as portas para os visitantes, porque eles podem acabar pisando na grama. O final que vem depois do "estou aqui" e que deixa a história ao acaso.

Aquele final que deixa tudo no ar, sem saber se o conto era em volume único ou em série.


quinta-feira, outubro 20

Veja só

Alguém me disse que você estava muito bonito naquela roupa. Que estava desfilando um corpo bastante bem moldado e que tinha consigo um semblante tranquilo. Disseram que você parecia até feliz.

Só que eles não sabiam onde você esteve na noite passada. E achavam que me faziam mal.
Veja só.


.

terça-feira, outubro 11

Vai e vem

Agora você vai se deitar ao meu lado e eu vou fingir que acreditei na sua história. A noite será longa e cansativa, mas, no fim das contas, ambos estamos sendo usados. Que seja. Vamos combinar, então, que você também pode fazer de conta que não conhece os meus fantasmas, e eu prometo que da minha boca não sairá uma palavra maldosa. Nem uma coisinha que possa te deixar desconfortável. Mas não tente fingir inocência, que esse jogo já acabou faz tempo.

Tudo às claras. Temos um acordo: você me ajuda a relaxar enquanto eu fico falando sobre futilidades, e eu ajudo a sua consciência a descarregar o peso. É uma via de mão dupla, querido.

Sempre foi.

quarta-feira, outubro 5

E então vou poder fazer as coisas que eu queria [fazer contigo]

Estou indo para qualquer lugar, com a intenção de encontrar de novo o tempo bom que passou por nós. Queria ver aquelas tardes douradas pelo sol do outono, e sentir as coisas que eu sentia na época. As coisas que não tinham nada a ver com ninguém em especial, mas comigo mesma; com o lado de dentro desse coração torto que nunca me largou. Não me leva a mal: tu sabes da importância que tens. Mas o meu problema é comigo, e já faz tanto tempo. Eu vou voltar pro ponto onde as coisas começaram a desabar e tentar arrumar a estrutura antes que ela se desfaça. Antes que eu acabe desfeita, mais uma vez.


Mas eu prometo que volto. E inteira.

sábado, setembro 3

Hora certa

É agora que você segura a minha mão com força. É agora que você não fala nada; não fala nada e me puxa de encontro ao seu peito e me faz continuar respirando devagar. Então nesse momento eu vou deixar que você me carregue de volta pra vida que eu não quero mais, depois de me convencer que não tem outro jeito se não ficar com ela. Depois de explicar com todas as letras todos os motivos para tantas novas chances; você vai bancar o vendedor e eu vou comprar o seu argumento. Eu vou comprar essa vida que você tanto fala. E vou fazer de conta que gosto.




Agora é a hora que eu finjo que sou essa que você vê.

sexta-feira, junho 3

Carta

Sinto muito, meu filho, por ter de dizer as coisas que vou lhe falar assim, dessa forma fria e de longe, mas ainda que não haja mais tempo preciso que tudo fique quitado entre nós. Eu juro que não planejei tudo isso - muito menos isso em especial - mas quis me certificar que eu teria a chance de te contar as coisas que ficaram para o final. As coisas que eu deixei no final.

Não são muitas coisas, na verdade - sinto desapontá-lo. Há uma casa fria na região da serra, outra vazia no litoral, dois apartamentos esquecidos na periferia e outro que costumava ser bastante acolhedor há vinte e cinco anos atrás. Há também um punhado de dinheiro, algumas jóias no cofre do banco e uma coisa que deveria ter te contado há muito tempo atrás. Me dói saber que demorei tanto para perceber que devia te dizer isso todos os dias... Sabe-se lá quantas coisas boas deixei de ganhar por causa do meu descuido. As coisas que ficam, no final, não são muitas; mas espero que as minhas netas possam usufruir de uma vida confortável por causa delas.

Perdoa-me, meu filho, se não tive coragem de ser para ti o pai que tu és para as tuas meninas. Perdoa-me por ter endurecido minha sensibilidade, por ter deixado as portas fechadas entre nós por tanto tempo. Eu que trabalhava tanto e quase não te via, acreditava estar fazendo o melhor que era possível para a nossa família. Eu posso passar a eternidade pedindo desculpa e talvez não consiga pedir perdão por todos os erros que cometi. Pelos erros que cometi com a tua mãe, e pela falta de atenção à vida que ela pôs fim. Pelos erros que cometi contigo e com a tua esposa. Por não ser o avô que minhas netas mereciam.

Perdoa-me por dizer-te tão tarde, meu filho, mas a verdade é que eu sempre te amei mais que a mim mesmo. Espero que o teu coração aceite essa verdade como a mais pura que eu poderia dizer, e que tu jamais deixes de dizer isso às tuas filhas. Eu te deixo um punhado de coisas, meu filho, e uma montanha de arrependimentos que tu conheces bem. Não posso sair de onde estou para dar-te um abraço, mas quero que sinta teu coração aquecido com todo o amor que um pai é capaz de dar a um filho; com o amor que eu tive por ti durante a minha vida toda.

Sinto muito, meu filho, por ter sido tão covarde.

Desejo que tenhas a vida completa, como eu poderia ter tido.
Com todo amor que havia no meu coração quando te vi pela última vez,

José Antônio Praga