É estúpido. Não há muito o que se dizer sobre esse tipo de coisa, esse jeito de esperar pelos desejos acontecerem. É bobo, e meio idiota, mas me é inerente. Está em mim, nos meus dias e noites e universos paralelos - porque eu tenho vários. É estúpido, eu sei. Mas cá entre nós, me é necessário.
Eu preciso desejar coisas, e fazer apostas comigo mesma. Eu preciso olhar pra uma estrela no céu e acreditar que ela tem o poder de me dar o que eu peço. E eu preciso crer que existem maneiras de pedir essas coisas para ela, porque assim eu posso acreditar que quando eu peço e não ganho, significa que eu não queria de verdade - e a estrela sabia disso.
É estúpido. E infantil também. Mas essa estupidez toda está em mim, e por isso eu não me importo em ser tao criança nesse sentido.
Eu tenho uma estrela que realiza desejos, afinal de contas.
Se meu plano fosse sério, seria chato de seguir. Sorrindo meio de canto; cantando sozinha um canto meio falho. Falhamos no refrão. Tinha um plano meio chato, que sem música perdeu o porquê. Tinha um sorriso de canto de lábio, mas daquela boca já não saía mais canção. Não ouvi mais a nossa música. Se meu canto fosse sério, seria raro. Se fosse inteiro, ao menos, seria calho.
Se sorrir não fosse falho, seria sorriso sério - dos que vêm de dentro da boca,
não da superfície do lábio.
Foi aí que eu senti. Foi nessa hora, quando todos vocês se mostraram tão felizes, que eu senti que eu também poderia ser. Foi aí que eu resolvi: queria ser. Então eu senti. Eram as cordas que me amarravam ao chão, caindo de mim; todas elas.
O que tu pensas que está fazendo? Menina mimada, sempre insatisfeita. Então não adianta eu me virar pra te dar o que tu sempre quiseste; não adianta eu ter passado a minha vida inteira fazendo tudo que eu podia para, agora, te entregar um sonho realizado nas mãos. Como tu pensas que eu fico, te vendo me olhar desse jeito sem gosto, sem sorriso?
Menina ingrata. Vá lá arrumar as malas... Custava, pelo menos, fingir que te agrada?
Idiota. Absolutamente. E sabe, nem foi difícil ser tão estúpida assim. Foi até fácil demais, porque na real você não deixou muitas alternativas. Você simplesmente chegou, meteu o pé na porta e destruiu minha zona de conforto. Pegou o que te interessava e foi embora, de cara limpa, e nem se preocupou em arrumar a bagunça.
Minha zona de conforto está em pedaços, e nem foi tão difícil pra você. Foi ridiculamente fácil porque na real eu não ofereci resistência nenhuma. Você me achou no esconderijo aqui de dentro e me arrancou dele; me deixou partida em dois. Eu vi possibilidades enquanto você fechava os olhos. E vi segurança segundos antes de você explodir meu carro forte.
Eu só não vi o quão absurdamente idiota eu estava sendo.
Há uma caixa onde nós colocamos todas as coisas que vivemos. Não importa o que seja, não importa se foi bom, não importa se fez mal; vai pra lá e fica, até ser achado de novo - para reabrir uma ferida, ou para costurar as partes soltas. A gente nunca acredita no tanto de espaço que ela tem, porque ainda que se guarde tudo, as coisas fogem de vez em quando, e deixam a caixa pra outros ocupantes. Às vezes nós até recebemos um aviso de "lotação esgotando", mas é só até as coisas se acomodarem e acharem o seu devido canto - ou sua rota de fuga.
Tem uma caixa dentro da gente que se chama coração.
E no coração tem de tudo. Tudo. Tem gente, tem dias, tem coisas. Tem coisa que dói ainda, e tem coisa que faz sentir bem. Tem gente que não presta e tem dias pra esquecer, mas também tem aqueles que valem a pena e uns momentos bons de lembrar como só. No coração cabe tudo que tu sentiste em cada dia da tua vida, e esses sentimentos às vezes ficam lá pra tu lembrares que é melhor sentir do que fingir que não quer, do que fingir que prefere ficar com as emoções antigas, com as coisas velhas. Cada um sabe o que guarda dentro da sua caixa, e cada um escolhe deixá-la aberta ou não.
A Pandora também tinha uma caixa, só que dela saíram coisas. Mas conta a lenda que a esperança, ou o não conhecimento do futuro, ficou lá dentro. A Pandora tinha uma caixa tão grande que cabiam todos os males do mundo, mas quando as coisas ruins saíram de lá pra assolar os humanos, (e essa parte do mito sou eu que conto) a esperança ganhou espaço e cresceu a ponto de encher a caixa inteira. Isso não está nos registros. A caixa de Pandora está cheia de esperança, e de tempos em tempos ela abre uma frestinha pra gente poder receber esse presente e renovar a nossa caixa. Mas se tu escolhes deixar a tua fechada, nem a esperança da Pandora pode ajudar. Quem fecha o coração faz uma escolha; e comete um engano.
No coração fechado nada entra e nada sai. Nada mesmo. Não renova, só revive - as mesas dores, os mesmos prantos, os mesmos momentos felizes e notálgicos. Aliás, é bem isso: um coração fechado é nostálgico. É preso num passado que se nega a perceber que o tempo não levou consigo os arranhões mal curados, e de tão mal intencionado que é, procura um jeito de coçar os machucados cicatrizados para que esses se abram novamente. E aí, eu digo, é triste demais.
Tem uma caixa dentro da gente que se chama coração. Ela não serve pra estoque de arquivo morto. Ela guarda tudo que tu vives, mas só mantém o que tu queres. Então não culpa o coração por ser lotado de coisa vencida, porque dessa caixa também se tiram coisas. E mais: ainda que cheia, nela tudo cabe.
Eu posso ser assim mesmo. sentir aberto o peito, coração exposto, tapa no rosto. Eu posso viver desse jeito. Sentido inverso, oposto e esquecer das placas que orientam sobre a direção correta.
Não sigo, incrédula sou torta e assumo que posso ser assim mesmo coração aberto, ferido de corpo cansado. Sigo mudando de esconderijo; adaptando-me ao contrário. Arrisco.
Porque viver desse jeito eu consigo: não posso sair é do inverso, ou me perco e deixo de ser, não existo. Sou oposto. Exposta. Em risco
Se eu fingir que não temo, tu me prendes naquele sonho bom, como antes? É que eu cansei disso tudo, sabe. Disso de bancar a atriz dia e noite, de fingir ser brincadeira as coisas que eu quero de verdade. De fingir ser de verdade. Então se eu disser que não tenho medo da vida, tu me levas pra longe dela? Não me julgues. Sabes que eu não sei direito o que fazer. Mas me faço, então, de forte e te digo para acreditar. Façamos um trato:
- Se eu fechar os olhos, tu prometes que ela passa sem me machucar?