Quinta-feira, Maio 31, 2012

Água doce

Afundara. E agora encontrava-se submerso num lago de pensamentos confusos; contraditórios com seus atos e com  reflexo de seus desejos. Envolto pela roupagem do compromissos que não sabia mais se queria para si, não pôde libertar os braços para que esses trouxessem seu corpo de volta à superfície. Queria alcançar um pedaço de qualquer coisa que o fizesse flutuar, mas sua própria consciência já estava pesada demais; cansada demais.

O lago era o dela. E tinha a mesma cor que a que lhe aparecia nos olhos. Mas ele esquecera de despir-se das roupas antes de entrar, e quando essas terminaram de se encharcar acabaram pesando no corpo. Para o peso do que trouxera, perdera a chance. Os braços não conseguiram desenrolar-se.

E os abraços permaneceram presos. Afundara.

Afundara sem ter a chance de respirar fundo, uma última vez. Uma última olhada para a luz do dia, no lado de cima da água. Seguia caindo para o fundo do lago mais doce que se dispusera a entrar quando terminou de soltar o ar que prendia, e parou a pulsação sanguínea. Afundara; e a consciência se esvaía à medida que o fundo chegava mais perto.

Mais perto.

Mais perto.


Mais



Fundo.

Terça-feira, Maio 29, 2012

Nota XII

Tu não devias deixar os outros perceberem. Tu devias seguir olhando pra baixo, para não precisar encarar ninguém e assim mostrar o que está por trás desses olhos - o que está espremendo esse coração. Tu não devias deixar os outros perceberem que ele recomeçou a bater; e quem sabe seja esperto abafar o som das batidas - que eu até já estou ouvindo, aqui de longe. Tu não devias abrir tanto os olhos.

Ou o peito.


O que aconteceu com o teu bom senso?

Segunda-feira, Maio 28, 2012

Sobre prazo e pena

Quantas vidas até esse suspiro virar sorriso, e iluminar os dias que eu passo soprando? Quantas vidas ainda passam sem que haja dias inteiros; além dos tantos dias a menos. Tanto quanto pode ser errado e torto, e feio, e feito para mim? E desses tantos, quantos mais aguento? Se são todos seguros, quantos mais perfuro para abrir uma brecha, e ser flecha que corta no fim?

Quantas vidas até que esse suspiro respire um abraço bem forte, sem vazio nem beijo perdido... Quantas vidas até eu desistir de ser mentira?

Quantas vidas eu mantinha sem abraços nem verdades; tantas outras mais, incompletas. Quantas delas valeram suspiros sufocados, sem beijo nem flecha. Nem sorriso no fim.


Sexta-feira, Maio 25, 2012

Ambas

Verdade era que o coração sentia. E sentia mais do que o esperado. Verdade era que os braços estavam procurando o que abraçar, e que os abraços queriam ser distribuídos para uma só pessoa. Ou duas.

Droga; uma ou duas.

Verdade era que o coração sentia demais. Que bastavam aquelas poucas horas para despertar as vontades do outro dia, daqueles sorrisos que escapam sem nem perceber. Verdade era que o coração sentia, sim, e por isso fundia a lógica com a incerteza da pulsação alterada, toda vez que havia abraços e sorrisos de uma certa pessoa. Ou de uma das duas certas pessoas.

Mas tinha que ser uma ou outra.
Droga.


Quarta-feira, Maio 23, 2012

Balada

E se a vida quiser brincar contigo?
Te fazer de boba, te jogar
de um lado para outro, e de novo
e de novo. E quem sabe,
mais uma vez.

E se a vida quiser te ver dançar?
Se ela escolher a música, e te jogar
de um lado pra outro, e pra outro e
pro outro. E quem sabe?
E quem sabe que outro?
Quem outro?

E se a vida quiser? Dancemos.
De novo.


E de novo, mais uma vez.
Quem sabe.

Domingo, Maio 20, 2012

Jogados

E daí vai lá, pega meu tabuleiro e toca pra cima. Pega meu tabuleiro e rearruma as peças, bagunça de novo e joga ele fora. Me dá um tabuleiro novo e espera que eu adivinhe as regras do jogo. E daí quando eu entendo, você vem e me diz que o que vale agora é o inverso do oposto. Me tira as instruções das mãos. Corta as regras.

E então vem manso e me quebra as peças. Substitui meus peões por pinos e dados. Troca minhas cartas por fichas mais bonitas. E vem de novo e me diz para pensar na jogada; diz pra eu fazer um movimento.

Eu faço.

E daí eu digo que foi com a chave inglesa, no salão de festas, mas não tenho um sujeito pra nomear. Não me restaram sujeitos nesse jogo novo que você propôs. Eu digo que foi você no salão de festas, mas você insiste que não estamos brincando disso.  Insiste que o culpado não está no tabuleiro. Que não há mais tabuleiro.



Mas daí vem manso de novo e me dá a corda.
E diz que vai ser na cozinha.


Sexta-feira, Maio 18, 2012

Afinal

[...] Era como ter vida do lado de dentro. Era como ter a face menos pálida, as olheiras menos fundas, os olhos menos tristes e o sorriso mais verdade. Era como se o lado de dentro vivesse de novo, porque pesava menos.


Só que daí acabou o conto. Acabou na hora em ele disse "apesar de tudo". Acabaram-se as risadas do dia e tudo ficou meio raso de novo - menos as olheiras. O conto não era de fadas, e não implicava um final feliz. Oferecia um final de contos modernos, onde cada um fica do seu lado e só retira as barreiras de vez em quando.

Aquele final que não tem ponto. Que não tem o "fim" escrito na última linha. O final de quem esquece que existe um lado de dentro, ou de quem quer evitar chegar ao ponto de abrir as portas para os visitantes, porque eles podem acabar pisando na grama. O final que vem depois do "estou aqui" e que deixa a história ao acaso.

Aquele final que deixa tudo no ar, sem saber se o conto era em volume único ou em série.


Piece of Pleasure

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