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domingo, janeiro 15

Funeral

Tantas vezes lutei para proteger minhas vontades que já nem sei mais quantas delas valiam a pena. Você deve entender, já que me disse isso tantas vezes, mas só agora eu fui capaz de enxergar quantas vidas eu poupei em vão. Quantos sonhos mantive trancados em mim, por não ter coragem de assumir que ficaria de mãos vazias me desfazendo de todos... Eu já não sei mais quem eu queria ser, quem eu era, e pior: quem eu sou.

Tantas vezes deixei passar minha chance de permitir que algumas coisas morressem.

E você agora me olha com essa cara de quem já sabia que essa hora iria chegar, e nem mesmo parece comovido com o momento. O momento em que eu enterro partes de mim que sobreviviam com ajuda dos cantos saudáveis, e que sugavam do meu lado bom toda a vida que eu tinha.

O que me assusta é que não faço nem ideia do que vai sobrar de mim quando eu terminar de desligar as pontes entre as partes. Ainda não descobri em quais aspectos eu era morta, e em quais eu vou continuar sendo. Eu só espero chegar a conclusão de que deixei morrerem os cantos certos.



Hoje morreram muitas de mim.
Eu sinto muito se você gostava de alguma delas.

sexta-feira, junho 3

Carta

Sinto muito, meu filho, por ter de dizer as coisas que vou lhe falar assim, dessa forma fria e de longe, mas ainda que não haja mais tempo preciso que tudo fique quitado entre nós. Eu juro que não planejei tudo isso - muito menos isso em especial - mas quis me certificar que eu teria a chance de te contar as coisas que ficaram para o final. As coisas que eu deixei no final.

Não são muitas coisas, na verdade - sinto desapontá-lo. Há uma casa fria na região da serra, outra vazia no litoral, dois apartamentos esquecidos na periferia e outro que costumava ser bastante acolhedor há vinte e cinco anos atrás. Há também um punhado de dinheiro, algumas jóias no cofre do banco e uma coisa que deveria ter te contado há muito tempo atrás. Me dói saber que demorei tanto para perceber que devia te dizer isso todos os dias... Sabe-se lá quantas coisas boas deixei de ganhar por causa do meu descuido. As coisas que ficam, no final, não são muitas; mas espero que as minhas netas possam usufruir de uma vida confortável por causa delas.

Perdoa-me, meu filho, se não tive coragem de ser para ti o pai que tu és para as tuas meninas. Perdoa-me por ter endurecido minha sensibilidade, por ter deixado as portas fechadas entre nós por tanto tempo. Eu que trabalhava tanto e quase não te via, acreditava estar fazendo o melhor que era possível para a nossa família. Eu posso passar a eternidade pedindo desculpa e talvez não consiga pedir perdão por todos os erros que cometi. Pelos erros que cometi com a tua mãe, e pela falta de atenção à vida que ela pôs fim. Pelos erros que cometi contigo e com a tua esposa. Por não ser o avô que minhas netas mereciam.

Perdoa-me por dizer-te tão tarde, meu filho, mas a verdade é que eu sempre te amei mais que a mim mesmo. Espero que o teu coração aceite essa verdade como a mais pura que eu poderia dizer, e que tu jamais deixes de dizer isso às tuas filhas. Eu te deixo um punhado de coisas, meu filho, e uma montanha de arrependimentos que tu conheces bem. Não posso sair de onde estou para dar-te um abraço, mas quero que sinta teu coração aquecido com todo o amor que um pai é capaz de dar a um filho; com o amor que eu tive por ti durante a minha vida toda.

Sinto muito, meu filho, por ter sido tão covarde.

Desejo que tenhas a vida completa, como eu poderia ter tido.
Com todo amor que havia no meu coração quando te vi pela última vez,

José Antônio Praga

segunda-feira, maio 23

Nostalgia - I

Hoje eu sonhei contigo, e não foi sonho bom. Estavas jogando o futsal, que tanto gostas, e de repente foste atingido. No sonho eu insisti que tu viesses comigo - porque tu não querias sair da quadra por nada; devia ser final de campeonato - e te carreguei pro hospital. Tinhas a perna quebrada. Te fizeste de forte e não reclamaste de dor nem uma vez, mas tampouco abriste a boca para falar coisa alguma. Eras tão orgulhoso quanto me lembro. Aliás, tu eras exatamente do jeito que me lembrava, de quando eu te vi pela última vez, há dois anos atrás. Não me dei conta de que já faz tanto tempo, até hoje.


Acordei nervosa. Não gosto de quando sonho algo ruim para pessoas que não vejo constantemente. Parece com um aviso, como um lembrete. Algo como "se tu ainda te importas, por que ficas tão longe?" e eu não tenho uma boa resposta para dar. Eu ia te ligar, juro que ia. Mas teve aquele dia que eu decidi que tu não fazias mais parte da minha vida, e apaguei teu número da memória.

Maldito dia.

sábado, maio 14

Contagem

Quantas perdas tu choraste?

Talvez tu nem mesmo recordes, ou se quer tenha notado. Mas eu não vou mentir, senhor. Me faço quase uma coveira. Carregando comigo uma pá e dois olhos perdidos, ando pela minha vida enterrando desesperos, enterrando gritos e sentimentos. Tantos sentimentos. O senhor talvez pense que eu sou exagerada, mas acredite quando lhe digo: sou tão morta quanto meus corpos. Sou tão pouco orgulhosa das coisas que enterrei que coveira não me cabe. Sou assassina, pois condenei-lhes. Sou a causa.

Quantas perdas tu já sofreste, senhor?

Quantos corpos tu choraste? Quantas vidas - das tuas próprias - tu interrompeste? Acho que talvez nunca paraste para pensar, mas quem sabe tu consigas te recordar da última vez que trocaste um futuro possível per medos covardes. Ali tu mataste. O senhor assim o sabe, agora, que o fiz tão vil quanto eu. Eu que sou a coveira dos meus destinos - e das minhas vontades. O senhor se faz tão enlutado quanto a minha pessoa. És culpado também.

De quantos sonhos tu já acordaste prematuramente? E a quantos amores te negaste? Quantos mais enterraremos até que larguemos as armas, senhor. O quanto mais permitiremos nossa vida ser o cemitérios que hoje é. Quantos mais dos nossos corpos choraremos a perda. Quantos mortos em nossos passados. Quantos?


Quantas vidas tu choraste, senhor? E em quantas vidas tu sofreste?