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sábado, maio 14

Contagem

Quantas perdas tu choraste?

Talvez tu nem mesmo recordes, ou se quer tenha notado. Mas eu não vou mentir, senhor. Me faço quase uma coveira. Carregando comigo uma pá e dois olhos perdidos, ando pela minha vida enterrando desesperos, enterrando gritos e sentimentos. Tantos sentimentos. O senhor talvez pense que eu sou exagerada, mas acredite quando lhe digo: sou tão morta quanto meus corpos. Sou tão pouco orgulhosa das coisas que enterrei que coveira não me cabe. Sou assassina, pois condenei-lhes. Sou a causa.

Quantas perdas tu já sofreste, senhor?

Quantos corpos tu choraste? Quantas vidas - das tuas próprias - tu interrompeste? Acho que talvez nunca paraste para pensar, mas quem sabe tu consigas te recordar da última vez que trocaste um futuro possível per medos covardes. Ali tu mataste. O senhor assim o sabe, agora, que o fiz tão vil quanto eu. Eu que sou a coveira dos meus destinos - e das minhas vontades. O senhor se faz tão enlutado quanto a minha pessoa. És culpado também.

De quantos sonhos tu já acordaste prematuramente? E a quantos amores te negaste? Quantos mais enterraremos até que larguemos as armas, senhor. O quanto mais permitiremos nossa vida ser o cemitérios que hoje é. Quantos mais dos nossos corpos choraremos a perda. Quantos mortos em nossos passados. Quantos?


Quantas vidas tu choraste, senhor? E em quantas vidas tu sofreste?