quinta-feira, julho 22

Carolina

O velho estava sentado naquele banco há pelo menos duas horas, quando eu saí de dentro da cafeteria. Estava começando a escurecer e o dia gelado anunciava uma noite mais fria ainda. Não que ele parecesse doente, mas o velhinho de cabelos mais brancos que o papel da comanda em que eu anotava os pedidos dos clientes não devia ter uma saúde de ferro, também. "A idade deixa a gente mais vulnerável", como dizia a minha avó, e eu pensei que talvez ele tivesse dormido e esquecido desse detalhe.


Saí da cafeteria, ainda de avental e cabelos presos, para tomar um pouco de ar e fumar um cigarro antes que meu chefe voltasse pro turno da noite e me fizesse atender mais mesas do que eu dava conta, e sentei-me ao lado daquele senhor. Era mais velho do que aparentava seus cabelos; a pele e as rugas no rosto indicavam muitos anos de experiência. Ele me olhou e sorriu um sorriso de avô que olha pra netinha dando seus primeiros passos, e me perguntou como me chamava. Respondi, educada, e continuei fumando meu cigarro. Ele continuou me olhando e tornou a falar.

- Sabe, eu tive uma filha. Ela tinha o mesmo nome que você. Mas agora seria mais velha; teria idade para ser sua mãe, talvez. Mas ela nunca teve filhos, e eu não tive outros... Ficamos só eu e ela quando minha mulher se foi. Éramos amigos, sempre nos demos muito bem, mas um dia ela resolveu que não podia mais ficar comigo, porque não queria me ver morrer. Disse, assim, seca: "é melhor enfraquecer os laços pra que quando eles se romperem ainda sobre vida para o outro". Eu nunca pensei que ela tinha medo que eu morresse, mas ela tinha. Tinha muito. Saiu de casa aos 18 anos e mandava notícias de vez em quando; até me visitava quando podia. Ela enfraqueceu os laços, sim, mas só pelo lado dela. Eu ainda espero pelo dia que ela vai entrar pela porta da nossa casa velha, me trazendo um abraço saudoso e um beijo para depositar na minha testa.

O meu cigarro acabara em seguida que ele terminou de falar. Percebi que ele não me olhava mais, e que parecia incomodado com a minha companhia. Não quis parecer rude, e pedi licença para voltar pro trabalho. Levantei e o velhinho falou ligeiro:

- Não vai acontecer. Mas um dia eu a encontro.

e sorriu aquele mesmo sorriso do começo, como se não tivesse acabado de falar. Ele estava sentado há mais de duas horas, com duas rosas nas mãos e uma lágrima no olho. As rugas pareciam mais fundas e os cabelos ainda mais brancos, desde que eu sentara ao lado dele. E agora, estando de pé, pude ver que ele parecia também mais curvado. Ele olhava para as rosas com um tristeza que chegava a murchá-las, com a dor de quem sabe que não podia fazê-las recuperar a cor vívida que possuíam. Com os olhos de quem passou por mais do que aguentava e com a vontade de atar os laços novamente. Ele olhou pra mim e aquela lágrima do olho escorreu até o queixo.

- Mas não vai acontecer.

Não sei se pelo nome semelhante ao da filha, ou pela pena que ele me fez sentir, mas abracei o velho e beijei-lhe a testa. Ele me respondeu com um doído "Adeus, Carolina".

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Não pude encontrar os créditos da imagem... só sei que Google Imagens a mostrou em resposta para "velho banco". =)

1 pessoa(s) disse(ram) que:

Rafael Caitano disse...

Quero convidar vocÊ a participar deste blog.
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