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quarta-feira, novembro 9

A ordem natural das coisas

E então o mundo parou. E eu fiquei olhando, enquanto as minhas expectativas eram desfeitas lentamente. O mundo não girou nem um centímetro, e em nenhum sentido; ele parou e eu observei como quem larga a mão da sorte e solta o corpo em queda livre.

Eu caí. 

E de repente algo me amparou. Um esperança, um fiapo de alguma coisa que me prendia e me impedia de receber o impacto que logo ia chegar. A poucos metros do chão eu parei numa escada que levava a uma porta meio mal tratada, um pouco judiada pelo tempo. Tinha algo nela que despertava toda minha curiosidade. Antes mesmo de perceber, eu já tinha estendido a mão para abri-la. A porta rangeu. 

Mas foi só. Ela não deu passagem.

E então eu quis voltar para a escada e ver aonde mais ela me levaria, mas já não havia escada. Não havia caminho de volta. Era a porta fechada ou o precipício de novo, a queda de novo: sensação que esmaga o peito. Só que a queda não era mais tão grande, e eu aceitei que às vezes esse é o único jeito de seguir: pra baixo, de volta pro começo.

E eu pulei.

Segundos depois eu parei naquele chão lamacento e gelado que me esperava, e as pedrinhas espalhadas me cortaram os joelhos e as palmas das mãos. Eu saí machucada, e ainda me dói. Mas aí o mundo girou de novo e começou a curar os arranhões. Porque, no fim das contas, foram só arranhões. E o mundo seguiu girando com todas as minhas esperanças quebradas, e eu observei cada uma delas morrer e dar o lugar a outras, que ainda não existiam.



Aquelas outras que virão.


domingo, julho 31

Cruzada

Chegara novamente à linha que separava as coisas. As coisas boas das coisas não tão boas; das coisas moribundas. Encontrava-se tão próxima da escolha errada que já nem mais sabia por onde voltar para antes da linha. Para antes do tempo em que a linha não existia, ou nunca fora vista.

Repensara seus passos, refizera seus caminhos calmamente. Como foi que chegara ali? A parte do percurso que a deixara onde estava não lhe era conhecida. Não lhe era amiga. Não era parte dela. A linha a encarava novamente, como se a desafiasse a cruzá-la. Como se olhasse em seus olhos e sem nenhuma palavra a convencesse de que era mais forte do que ela própria. Convenceria aquele par de olhos a entregar-se ao lado moribundo da linha e a reconfortar-se nos braços dos seus medos secretos, com os olhos tão cerrados que não mais abririam-se. Aqueles olhos desafiados.

Chegara novamente à linha que determinava as coisas. Que dizia se os passos iriam para frente ou se ficariam estacionados; ou se iriam para outra direção depois da divisória, que não chegava no lado agonizante mas que seguia rente a ele. Desafiou os passos. Cruzou a linha.


Andaria até chegar ao topo do precipício.