Vivemos de abraços. De gestos e toques, e movimentos que condizem com o que dizem. Vivemos de abraços, frouxos e fortes, e apertados ou sentidos. Vivemos de trocas, de partes de vida compartilhadas e concedidas em abraços repletos e cheios de nós.
Vivíamos de abraços - de tantos braços; e alguns nos fugiram.
A gente se apoia nas palavras. A gente confia no que nos dizem porque normalmente essa é a unica coisa que nos oferecem. E a gente acredita, sim. Só que tem quem não conhece o valor do que diz, e diz qualquer coisa. Diz sem intenção de cumprir. A gente se apoia nas palavras, mesmo assim.
A gente acredita em palavras porque gostamos de pessoas.
Só que nem todo mundo sabe o que diz.
Ela aceitou entrar na dança e abrir o coração para o estranho a para as coisas que não aconteciam na vida antes daquele dia. Ela resolveu dançar os passos descompassados do vazio de antes para então deixá-los sair de si. Dançou, girou, sorriu, cantou suas músicas a plenos pulmões para então aceitar a lágrima que escorria indiscreta pelo rosto. Felicidade demais vem acompanhada de coisa que dói; e ela não sabia como não dar bola para aquilo.
O aperto esmagava os pulmões, que apressadamente buscavam fôlego para a próxima música.
Ela entrou na dança e correu o salão inteiro. Ela abriu o coração para o estranho e achou que era certo ser idiota por uma razão sincera. Entrou na roda e, tão disposta, tirou os sapatos para que nada no corpo doesse e a fizesse parar. Ela tirou os sapatos mas ficou com o coração; ingênua, pensou que só o sapato fizesse doer.
Sentiu o aperto nos pés aliviando. Sentiu um aperto mais forte no peito, crescendo.
Ela entrou na dança e dançou as batidas intensas que não ouvia há anos. Quis escolher uma música quando o destino mudou a trilha e abriu a roda. O salão agora tem o tamanho do mundo. E o coração, ainda apertado, sente que não cabe mais naquele peito. Ela resolveu dançar a dança dos que se vão.
E está indo mesmo.
O estranho ainda lhe dói, mas não parece saber o que faz.
É o tipo de coisa que tem nome e motivo; egoísta, exige consideração. Do tipo que não se deixa empurrar para o lado e simplesmente fingir que não está ali; é a presença da ausência - forte, e fria. É o tipo de coisa que se pode tocar, ainda que não tenha corpo, nem forma. É fato. E capaz de gelar a alma inteira, com apenas um sopro, de longe.
É como se o chão tivesse sumido de baixo dos pés e todas as outras coisas simplesmente deixassem de incomodar. Parece que, de repente, o universo se dividiu em dois; perfeitamente distinguíveis, eles dançam a dança dos que sorriem com todos os sorrisos que têm. É como se o presente estivesse com seus dias contados e soubesse disso.
É como se os dias mais absurdamente felizes e doídos estivessem por vir.
É sonho. É um pedaço do futuro que eu sempre quis. Mas é conquista que implica desapego. E vai ser preciso abafar um coração apertado de saudades o tempo todo; eu sei. Eu sei que nos últimos tempos eu trouxe pra minha vida as pessoas mais incríveis que eu poderia querer. E sei que eu não sou a melhor nessa história de desapego, também. Mas é assim mesmo que funciona: coisas boas custam caro. E isso dói. Mas vai doer por só um ano. Só um ano.
Só um ano. Observe.
É como se essa dor já começasse a doer aos pouquinhos, e soubesse que só tende a crescer. É um pedaço do futuro feliz e de todas as possibilidades que isso traz. Chega de amanhã.
Mudei de hábitos, de humores.
Segui andando e aceitei
sabores amargos misturados aos teusdoces.
Segui sabendo que nem sempre a coisa é
assim ou assada, ou acima
das expectativas.
Mudei de hábitos e humores, mudei de cores.
Mudei de planos, e mudei de dores. Mudei sorrisos.
Quando abriu os olhos percebeu que acordava num mundo que não estava ali no momento em que os fechara. Viu-se acomodada num jardim cor de vivo, em que possibilidades e desejos passeavam pra lá e pra cá. Quando abriu os olhos, enxergou as cores; ouviu o som do vento e sentiu de novo os pulmões repletos. Sentiu o próprio coração batendo, o sangue fluindo e os sonhos desenrolando-se das amarras que os prendiam no futuro.
Sentiu o próprio coração, o que era novidade.
Quando abriu os olhos percebeu que estava longe demais para voltar, e por isso permitiu-se continuar acordando para a vida que se mostrava em nova perspectiva. O mundo era outro, mas sabia que um dia voltava.
Se pudesse, buscaria do mundo velho alguns corações, e levaria consigo.
Imaginou se eles ainda bateriam por ela depois de todos os dias que se fossem.