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quinta-feira, maio 23

Tarda

Ela deitou os olhos nas fotos, retirou os suspiros do peito e expulsou alguns nós da garganta. Ela engoliu. Ela guardou as fotos naquela pasta dentro de outra pasta porque não queria tê-las ao alcance dos olhos - que já vinham cansados das coisas que, confessava, ela mesma procurava ver. Ela deitou os olhos nas fotos, e estas colaram memórias em sua mente; mentira dizer que havia ficado no passado.

Ela deitou o corpo na cama. Que agora recebia só o corpo dela. Ela deitou o corpo na cama, largou os braços ao lado do corpo e respirou um pedaço de lembrança. Assistiu àquela noite como uma cena de filme; assistiu ao mesmo ato de novo e de novo. Ela deitou o corpo na cama e largou os braços ao lado, porque agora havia espaço - e não havia outro corpo.


Ela nao devia ter dito que estava exausta. Agora tarda.

quarta-feira, outubro 24

De manias e fatos

Ele tinha essa mania de não acreditar em mim. E tinha aquele jeito de quem gosta sem querer, de quem sabia que nada daquilo ia ter jeito de ser bom. Na verdade ele bem sabia que era bom, mas havia um quê de qualquer coisa que evitava que os braços dele me segurassem com mais força do que eu seria capaz de superar, se quisesse. Ele tinha essa mania de ser bom pra mim; e de me dizer absolutamente tudo que pensava - ainda que pensasse demais.

Eu não tenho fotos. Mas me ficaram as falas; as que diziam que nada de bom ia ter jeito naquela situação, ainda que depois os lábios contradissessem cada uma das palavras. Talvez essa distância tenha feito as palavras mais verdade.



Ele tinha essa mania de estar certo, também.
Fato é que eu queria ter guardado uma foto, pra olhar agora que já não dói.